quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Rússia e a Chantagem Sexual

Via Fuga da Caverna 
Quando a União Soviética criou a Intourist, sua companhia de hotéis e viagens, na era de Stálin, os mensageiros, motoristas, cozinheiros e camareiros eram todos funcionários da NKVD, a agência de polícia secreta do Estado que mais tarde se tornaria conhecida como KGB.

A folha de pagamento da organização também incluía prostitutas, usadas para apanhar políticos e empresários estrangeiros em situações comprometedoras e submetê-los a chantagem.

Os hotéis da Intourist na Rússia foram vendidos, o que inclui seu carro chefe, um hotel decadente que ficava na mesma rua do Kremlin.

Reformado suntuosamente e dotado de um spa que conta com medidas especiais de segurança, o hotel agora se chama Ritz-Carlton, um luxuoso tempo cinco estrelas que se promove como “um retiro inesquecível no coração da cidade”.

Mas de acordo com memorando não corroborado e altamente difamatório preparado por um antigo agente do serviço de inteligência britânico para uma empresa de pesquisas empresariais e políticas sigilosas em Washington, o Ritz continua a ser um lugar no qual hóspedes estrangeiros, entre os quais Donald Trump, podem cair vítimas da arte russa do “kompromat” a coleta de material comprometedor, a ser usado para obter vantagens.

Um resumo das constatações do antigo espião foi apresentado na semana passada ao presidente Barack Obama e ao presidente eleito Trump, que em entrevista coletiva na quarta-feira denunciou a publicação das informações como “falsa notícia”. Um porta-voz do Ministério do Exterior da Rússia descartou as acusações como “escancarada bobagem”, e “insultuosa asneira”.


Uma porta-voz do hotel se recusou a discutir o assunto. “De acordo com o padrão de nossa empresa quanto à proteção da privacidade dos hóspedes, não falamos sobre qualquer indivíduo ou grupo com o qual tenhamos feito negócios”, afirmou Irina Zaitseva, diretora de marketing e comunicações do hotel, em mensagem de e-mail.

O que quer quer que tenha ou não tenha acontecido na suíte de hotel de Trump em 2013, quando ele visitou Moscou para assistir a um concurso de Miss Universo, a Rússia tem um longo e bem documentado histórico de uso do kompromat como forma de desacreditar os inimigos do Kremlin e pressionar seus potenciais amigos.

Por décadas, os hotéis visitados por estrangeiros na antiga União Soviética estavam equipados com dispositivos de escuta e câmeras operados pela KGB.

Restos dessa estrutura ainda podem ser vistos em Tallinn, capital da antiga república soviética da Estônia, onde os novos proprietários finlandeses de um antigo hotel da Intourist criaram um museu para mostrar os equipamentos de vigilância e outras técnicas usadas para espionar e chantagear os hóspedes estrangeiros.


Peep Ehasalu, que ajudou a montar o museu, disse que 60 dos 423 quartos do hotel tinham escutas e eram reservados para “pessoas de interesse”, como empresários estrangeiros.

Os hóspedes considerados vulneráveis a chantagem eram abrigados em alguns quartos dotados de buracos para observação nas paredes, por meio dos quais seus encontros com prostitutas podiam ser filmados.

Todas as prostitutas, disse Ehasalu, trabalhavam para a KGB, que expulsava dos estabelecimentos as profissionais do sexo que não contassem com aprovação oficial.

A maioria dos hóspedes do hotel, na época, vinha da Finlândia, que mantinha um relacionamento incomumente próximo e amistoso com Moscou.No entanto, os líderes soviéticos temiam constantemente que o país optasse por se aproximar mais do Ocidente.
Para desestimular qualquer intenção nesse sentido, a KGB tomava por alvo autoridades finlandesas que visitassem a Estônia.

“Se um político ou empresário sabe que o KGB pode publicar fotos comprometedoras dele, ou enviá-las à sua mulher, se torna muito fácil controlar essa pessoa”, disse Ehasalu em entrevista por telefone.

Os empresários que caíam nessas armadilhas, ele disse, “voltavam para casa e diziam que a vida era boa na União Soviética, e que a Finlândia devia fazer mais negócios com os soviéticos”.

MESMOS MÉTODOS

A Rússia, diferentemente da Estônia, não se afastou muito dos métodos da era soviética. A FSB, agência que sucedeu a KGB, perdeu muita influência no começo dos anos 90, mas se reafirmou vigorosamente desde que Vladimir Putin subiu ao poder, 16 anos atrás.

Antes de se tornar presidente, Putin desempenhou papel proeminente em uma operação de kompromat especialmente bem sucedida. Como comandante do FSB, em 1997, ele conquistou a confiança do então presidente Bóris Iéltsin ao ajudar a destruir a carreira do procurador-geral da Rússia, Yuri Skuratov.

Depois de iniciar uma investigação sobre a corrupção no Kremlin, o procurador caiu em desgraça quando foi exibido em cadeia nacional de TV um vídeo que mostrava um homem parecido com ele fazendo sexo com duas jovens.


Putin confirmou publicamente que o homem no vídeo, que quase todo mundo acredita ter sido organizado e filmado pelo FSB, era de fato o procurador geral. Skuratov renunciou, a investigação sobre corrupção foi encerrada e Iéltsin, agradecido, fez de Putin seu primeiro-ministro, o que abriu seu caminho para a presidência.

Ao contrário de operações que forjam indícios de comportamento criminal ou simplesmente embaraçoso, o kompromat em geral envolve situações reais, se bem que as fotos e vídeos sejam em muitos casos adulterados para reforçar o embaraço. Isso faz do método uma arma especialmente grosseira e perigosa, que pode facilmente sair pela culatra.

Mark Galeotti, especialista nos serviços de segurança russo do Instituto de Relações Internacionais de Praga, disse que a estratégia sugerida pelo agente britânico, e não confirmada, era “muito arriscada” e que seria insensato para a Rússia chantagear Trump.

“Se os russos divulgassem um vídeo como esse, estariam declarando guerra a Trump”, ele disse. “E isso claramente não é algo que Putin deseje fazer”.
Para os oponentes de Putin na Rússia, o kompromat, incluindo vídeos de sexo gravados clandestinamente, se tornou sério problema.

A divulgação de material embaraçoso teve efeito devastador sobre as famílias e carreiras de alguns ativistas, deixando cicatrizes duradouras. Mas a divulgação desse tipo de material também pode ser uma marca de honra, ao demonstrar que o alvo não cedeu à chantagem.

Fonte
Original por: “THE NEW YORK TIMES”
Tradução por: Folha de São Paulo

Sem comentários: