sábado, 18 de fevereiro de 2017

Gabo no Leste.


Via Malomil

Lê-se de um trago. Como a vodca polaca, 46 graus. Viagens de Gabo pela Europa de Leste na década de 1950. Um retrato sombrio, primorosamente escrito, bem-humorado, e que procura ser imparcial e honesto do muito que Gabriel García Márquez viu na Alemanha Oriental, na União Soviética, na Checoslováquia, na Hungria. De todos os países vistos, a Hungria pós-revolução de 1956 é, talvez, aquele que mais arrepios lhe suscitou. Em contraste, é radiosa a descrição da Checoslováquia. Mais penosa, a burocrática Alemanha de Leste. Ou a Polónia – com uma tremenda narrativa sobre Auschwitz. Umas vezes como convidado oficial (a Moscovo, por exemplo), outras como easy rider, na companhia de Jacqueline, uma francesa de origem indochinesa, paginadora numa revista de Paris, e de Franco, correspondente ocasional de revistas milanesas, «domiciliado onde a noite o surpreenda». Tudo o que vêem é cinzento, triste: «pobre gente» da RDA (o «povo mais triste que eu alguma vez tinha visto». Mas também a generosidade espontânea dos russos, habitantes de um território de 22 milhões de quilómetros quadrados sem um anúncio da Coca-Cola. Da Rússia, com amor, Gabo enaltece a higiene de Moscovo (mas, pouco depois, alude à porcaria que encontra no campo russo). São frequentes as descrições da «arquitectura de pastelaria» e, quando se acerca do Palácio da Cultura de Varsóvia, uma bizarra oferta de Estaline a um país em cinzas, García Márquez diz que o edifício iria ser, provavelmente, destruído dentro de décadas. O Muro caiu, falou-se da demolição do Palácio da Cultura de Varsóvia, mas ele continua lá, imponente, porventura horrendo, mas testemunho de pedra de um passado que não quer passar. Um livro soberbo. Como a vodca polaca, 46 graus.

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