quarta-feira, 1 de março de 2017

A desfiguração de Lisboa

A-24: Não é de agora, mas nos últimos dez anos e com o rebentar da instabilidade em França e no norte de África, devido ao terrorismo, Portugal e Lisboa passaram a ser cada vez mais, destinos seguros e relativamente baratos, atraíndo todo o tipo de visitantes, mas como em todos os fenómenos, existem sempre aspectos negativos. Eu ficaria muito triste que um dia a minha cidade se parecesse com Barcelona ou Veneza, onde já quase todos os moradores das zonas pitorescas foram obrigados a abandona-las, devido à pressão turística e aos "investimentos para reabilitar" e ao facto de se sentirem cada vez menos identificados com os lugares onde cresceram. É verdade que eles contribuiram para a reabilitação do centro histórico da cidade mas nem 8 nem 80. Lisboa está a ficar cada vez mais descaracterizada, em breve, deixará de ser procurada por visitantes como eu, que preferem pagar um pouco mais para descobrirem lugares autênticos e que ainda não estão constaminados por turismo e imigração. Por causa disso, a Europa ocidental e sobretudo as maiores cidades, nunca mais figurarão na minha lista.


Mouraria - Lisboa

JN - Só num prédio da Mouraria há 17 famílias em risco de perder a casa para permitir que avancem projetos de alojamento local.
Cerca de 40 pessoas, de 17 famílias, que habitam um prédio na Rua dos Lagares, no típico bairro da Mouraria, em Lisboa, estão em risco de perder as casas que habitam há décadas, para permitir a transformação do edifício em mais uma unidade de alojamento local. O novo proprietário, que adquiriu o imóvel no verão passado, já enviou cartas a todos os inquilinos avisando que os atuais contratos de arrendamento não serão renovados. A Câmara diz que estas notificações "não têm qualquer valor" (ver caixa), mas os moradores estão preocupados e dizem não ter para onde ir.
Marcelino Figueiredo, que já foi presidente da antiga Junta de Freguesia da Mouraria, não tem dúvidas de que este é mais "um avanço" dos investidores em unidades de alojamento local, que já tomaram boa parte de um dos mais castiços bairros de Lisboa. "A nova Mouraria é isto: hostéis e condomínios. O tradicional está a desaparecer", desabafa.
Carla Pinheiro, moradora no primeiro andar, destaca que a situação está a deixar as pessoas desesperadas, porque as rendas no bairro subiram em flecha e não há alternativas. "Tenho uma mãe com 95% de falta de visão, um pai que não tem uma perna, que vivem aqui ao lado. Sou filha única, só eu posso cuidar deles. Se me for embora daqui, quem vai fazê-lo?", questiona.
Os moradores queixam-se ainda do estado de degradação que as casas atingiram, devido ao mau estado do telhado, e das pragas de ratos e baratas.
Rendas impossíveis
Mas a situação não se fica pelo número 25 da Rua dos Lagares. Rui Pedro e Alessandra Almeida, moradores numa rua vizinha, receberam uma carta no início do mês onde lhes é dito que têm de deixar a casa até final de março.
"Temos os filhos a estudar aqui, a neta na creche. Para onde querem que vamos?", pergunta o marido. Já a mulher revela que, quando tentou procurar casa, o preço das rendas deixou-a estarrecida. "Pediram-me 1600 euros por um T4. Isso é impossível", destaca.
Rui Pedro diz que na Mouraria, os hostéis e alojamento locais, "já são porta sim, porta não". "Qualquer dia não fica nada de português aqui. Até as marchas de Santo António acabam nestes bairros, porque a população está a ser empurrada para fora", conclui.


2 comentários:

Bilder disse...

Enquanto isso há muros a cair(muros esses que são defesa da vida de pessoas)por não haver dinheiro(digo eu ,não sei)ou vontade de fazer obras antes das desgraças acontecerem(falo do caso concreto da arroios/graça).Ontem li no CM o comentário de um residente "despejado" que afirmou que já há 19 anos a camara(claro que eles dizem que não é nada com eles mas com o condominio fechado/privado na graça) foi prevenida para tal situação.O que mais podemos dizer?

A-24 disse...

Eu sou a favor da reabilitação, mas nem 8 nem 80. O próprio terramoto de 1755 fez com que fosse possível reconstruir Lisboa, ou toda a cidade seria hoje uma alfama e mouraria em ponto gigante.
É hora dos construtores começarem a investir noutras cidades da orla e noutros pontos do país.