sábado, 4 de março de 2017

Fazer turismo na Coreia do Norte

Sputnik 
Em 1990, Alejandro Cao de Benós contatou pela primeira vez com algumas famílias coreanas que moravam na Espanha naquele tempo. Em 2002, ele foi nomeado delegado especial do Comitê de Relações Culturais dependente do governo norte-coreano.
Em entrevista à Sputnik Mundo, no Pyongyang Café de Tarragona, na Espanha, Benós contou como é a vida do povo de um dos países mais herméticos do planeta. 



Sputnik: Por que alguém deveria fazer turismo na Coreia do Norte?
Alejandro Cao de Benós: Bom, não sou o único que diz isso, mas também o dizem grandes viajantes que estiveram no país e o consideram o mais interessante no mundo. É espetacular não apenas a nível monumental, mas também pela sua cultura que se conserva sem ser afetada pela chamada ‘globalização’ e que não tem influência das outras culturas imperialistas. Por outro lado, tomando em conta o aspecto social, independentemente da orientação política do viajante, há a possibilidade de poder contemplar e conhecer, no ano de 2017, como se desenvolve um país socialista no qual a vida é gratuita, não existe desemprego e não há prostituição… é quase incrível, pois é algo muito interessante de ver e conhecer por si mesmo.Alejandro Cao de Benós durante sua entrevista ao Sputnik MundoAlejandro Cao de Benós durante sua entrevista ao Sputnik Mundo.Alejandro Cao de Benós durante sua entrevista ao Sputnik MundoAlejandro Cao de Benós durante sua entrevista ao Sputnik Mundo
Alejandro Cao de Benós durante sua entrevista ao Sputnik MundoS: Um turista pode andar lá sozinho?
ACdB: Não, não é possível. Para turistas existe uma normativa do Governo de que uma pessoa tem que andar acompanhada. Normalmente é acompanhada por dois guias que precisam se revezar, preencher as autorizações e estar com a pessoa 24 horas por dia. Inclusive ficam alojados no mesmo hotel onde se hospeda. Mas quando se trata de visitas não turísticas, quando uma pessoa tem a confiança do nosso Governo, não precisa de guias e pode se movimentar com tranquilidade, passear por onde quiser… mas para isso é preciso haver um nível de confiança que não se aplica a nível turístico por que é um sistema aberto e qualquer um pode ir como turista à Coreia. 

S: E o que faz um turista na Coreia do Norte?
ACdB: A partir das 07h00 da manhã até às 20h00 o turista tem um roteiro bastante apertado todos os dias. Como regra, a maioria das pessoas quer aproveitar o tempo ao máximo. Visitará os monumentos da capital mais importantes, as estátuas de bronze, a colina Mansu [com os monumentos de bronze dos líderes do país], a Torre Juche, o maior arco de triunfo no mundo, provavelmente visitará o Palácio das Crianças, onde crianças farão uma apresentação da cultura tradicional, e quase certamente, em quase todos os roteiros, vai viajar 200 quilômetros para sul até a fronteira com a Coreia do Sul, para visitar Panmunjom, a zona desmilitarizada, e conhecer como é a divisão atual da Coreia fomentada pelos EUA. Esta visita é fascinante, num lugar de alta tensão, onde cara a cara estão marines norte-americanos e é uma visita obrigatória. Se uma pessoa tem um pouco mais de tempo, especialmente no verão, se preparam voos para o Baektu, o monte mais alto da Coreia, que é um vulcão extinguido com maravilhosos panoramas naturais.
Soldados estadounidenses e sul-coreanos na zona a sul da fronteira 
S: O viajante, quando regressa, muda suas impressões sobre a Coreia do Norte?
ACdB: Sim, em 98-99% dos casos muda completamente. As pessoas costumam ir com medo ao país devido ao sensacionalismo de muitos meios de comunicação, à manipulação da mídia e de alguns governos… então quando veem com seus próprios olhos a realidade, vem que não há pessoas pedindo esmola nas ruas ou procurando no lixo, que ninguém vive em caixas automáticas, ficam surpreendidos de que no país todo o mundo tenha o necessário e a gente seja feliz, é a primeira coisa que os impressiona. Há um caso recente, de Richi González Ávila, treinador de basquete espanhol, que esteve durante um certo tempo na Coreia do Norte e está desejando voltar, e uma das coisas que o surpreende é que certos países do primeiro mundo, os mais avançados, têm grande número de pessoas vivendo em condições miseráveis e sem teto, enquanto na Coreia do Norte a gente não vive com grande luxo, mas tem o necessário para viver.

S: É permitido usar redes sociais durante a visita?
ACdB: Claro, para isso os turistas podem comprar cartões que possibilitam acesso à Internet para seus celulares (…). Este tipo de conexões sai bastante caro, mas é possível. 

S: O que agrada mais aos turistas?
ACdB: Normalmente eles costumam realizar uma visita à zona desmilitarizada, porque o tema dos monumentos impressiona, mas afinal são construções. Contudo, visitar Panmunjom e ver a tragédia da divisão coreana, ver a Guerra Fria que tem continuado desde os anos 50, é muito impactante porque parece que não pode ser assim, que um país onde uma só nação, entre irmãos, está dividida e que há uma situação de guerra constante, de possibilidade de um conflito real porque, de fato, a guerra não terminou. Essa situação de tensão e ver cara a cara os soldados do Exército Popular frente aos marines norte-americanos, provavelmente, é o que mais impressiona todos os visitantes.
Conjunto de túmulos de Koguryo é o primeiro lugar declarado Patrimônio da 
Conjunto de túmulos de Koguryo é o primeiro lugar declarado Patrimônio da Humanidade na Coreia do Norte 
S: E do ponto de vista burocrático, que passos tem que fazer para viajar à Coreia do Norte?
ACdB: Basicamente, tem que solicitar isso com um mês de antecedência, está aberto a todas as nacionalidades, exceto a passaportes sul-coreanos e passaportes japoneses, os japoneses sim podem visitar a Coreia do Norte, mas através de outro canal, a Associação de Coreanos Residentes no Japão. Os coreanos do Sul não podem visitar o país porque estamos oficialmente em conflito, não há relações. Além disso, para um sul-coreano é completamente proibido visitar a Coreia do Norte por parte do seu próprio governo. Apesar disso, inclusive pessoas de países com os quais não temos relações diplomáticas, como Israel e EUA, podem visitar tranquilamente a Coreia simplesmente avisando com um mês de antecedência, apresentando o passaporte, duas fotos, um pequeno currículo que especifica a morada, e-mail e dados pessoais e indicando o que querem visitar para se ir preparando o roteiro e o programa de viagem. É um processo muito, muito simples, que praticamente todas as solicitações são aprovadas.



S: E quanto custa uma viagem turística à Coreia do Norte?
ACdB: Depende muito do número de pessoas que pretendem fazer a mesma viagem. Por exemplo, se uma pessoa faz uma viagem individual de uma semana, como vai pagar transporte, motorista, dois guias, tradutores, taxas turísticas… tem que pagar tudo (…) o custo poderá ser em torno de 2.800-3.000 euros, em hotéis de quatro estrelas, com tudo incluído. Além disso, há o voo de Air Koryo [companhia aérea oficial da Coreia do Norte] de Pequim a Pyongyang, que é um voo de 1h45 minutos e que custa 550 euros. O preço pode ser rebaixado até 1.300-1.400 euros dependendo do volume de turistas em um grupo. Por exemplo, a partir de 15 pessoas já são fretados ônibus e se dividem todas as despesas entre os visitantes.

S: O que os turistas na Coreia do Norte não podem fazer?
ACdB: Não podem andar sozinhos sem avisar o guia, se este não os autoriza e se eles não estiverem acompanhados, não podem sair do hotel – de qualquer maneira, também não há muito tempo livre, a agenda é muito intensa. Não podem tirar fotos de instalações militares e pessoal militar sem autorização. Isso não significa que se uma pessoa está em um parque e haja um militar com seu uniforme e a sua família não se possa tirar uma foto com eles ou inclusive pedir-lhes para tirar uma foto privada, mas geralmente, e sobretudo nos postos de controle militares, não é permitido tirar fotos. E também conservar o respeito em relação ao país, em relação aos nossos líderes e nosso governo e, basicamente, não levar elementos de propaganda em massa. O que significa isso? Há pessoas que creem ou que sejam iluminadas por Deus, ou que vêm [à Coreia do Norte] para tentar praticar proselitismo da sua própria religião e trazem mil bíblias ou mil panfletos para fazer propaganda… isso não é permitido. O turista pode trazer a literatura que queira, mas para seu uso pessoal durante a visita, e estas são basicamente as restrições que existem. Quanto ao resto, não tem nada de especial. 
S: Quais são os souvenires prediletos dos turistas?
ACdB: Geralmente são os postais, com pôsteres de propaganda política que surpreendem muito a gente. Também há camisetas com a bandeira do país, alguns selos… e sobretudo insígnias com a bandeira nacional que costumam ser o produto favorito dos turistas. 

S: E quais são os indicadores de turismo da Coreia do Norte?
ACdB: Atualmente temos cerca de 50.000 visitantes por ano na Coreia, dos quais uns 5.000, uns 10%, não são chineses. Ou seja, a maioria absoluta de visitantes são chineses, porque temos em conta o turismo que passa pela própria fronteira… é muito fácil visitar a Coria do Norte, eles podem fazer visitas de dois dias, mas estão restringidos a uma zona fronteiriça entre ambos os países. O resto, os visitantes ocidentais, podem fazer visitas de uma semana a dez dias, ou inclusive de um mês… costumam ser muito mais extensas. E destes 5.000 a maioria são europeus, seguidos de canadenses e australianos, e depois os norte-americanos. 

S: Não tem nada a ver com Barcelona…
ACdB: Não, absolutamente nada, de qualquer maneira, nunca permitiríamos ao nosso governo que houvesse este turismo em massa que não permite aos próprios habitantes de Barcelona viverem na cidade.

2 comentários:

Afonso de Portugal disse...

«(...) um país socialista no qual a vida é gratuita, não existe desemprego e não há prostituição… »

Duvido muito que ele acredite mesmo nisto, sobretudo no que respeita à prostituição. Onde houver seres humanos, haverá sempre prostituição, por mais escondida que esteja.

A-24 disse...

Ideologias. Naturalmente que existe prostituição na Coreia do Norte, a começar no palácio presidencial do tirano.