sábado, 11 de março de 2017

«o pior de tudo».

Malomil
Talvez não seja de muito bom gosto contar esta história. Mas, como se diz numa extraordinária obra da literatura portuguesa, O Diabinho da Mão Furada, «estão os gostos hoje de tão mau gosto que se inclinam mais ao que dana do que ao que aproveita.»
A história vem contada num livro de que não se falou muito, Vou-me embora. Cartas de suicidas, terrível antologia organizada por Udo Grashoff e publicada entre nós em 2006, com tradução de Maria Manuel Tinoco e chancela Quetzal.
Fotografia de Francesca Woodman
Não posso continuar a viver assim.
Não há remédio. Nunca mais me hei-de recompor.
A morte é a única saída.
Já não posso ver nenhum homem, fico perturbada, agoniada.
Ninguém me deve lamentar, porque afinal eu é que sou a culpada de todo o problema.
Só tenho pena dos meus pais. Não mereciam que a filha seguisse este caminho. Gosto muito dos meus pais.
Talvez seja possível que eles não venham a saber de nada.
Talvez seja possível dizerem-lhe que eu tive um acidente mortal de automóvel ou qualquer coisa assim. Gostava que não soubessem de maneira nenhuma que me matei. A minha mãe não aguentaria, tem os nervos muito fracos.

Estas palavras foram escritas por Júlia C., estudante de química, 22 anos, pouco antes de se atirar de um décimo primeiro andar de um edifício. 2 de Junho de 1974, República Democrática Alemã.
Dois dias antes, ela e uma amiga fizeram uma festa no lar de estudantes com dois colegas soviéticos, também alunos universitários. No final da noite, Júlia C. foi violada por um deles.
Naquela época, como se diz no livro organizado por Udo Grashoff, «a violação de uma alemã por um estudante soviético era, na RDA, mais do que uma tragédia privada; era uma tragédia política. A menor das críticas ao país “Grande Irmão”, a União Soviética, era uma “calúnia”». Por isso, sobre Júlia C. foram exercidas inúmeras pressões para que não denunciasse o violador. As organizações que supostamente a deviam apoiar, desde os serviços sociais às autoridades universitárias, tudo fizeram para que ficasse calada.
No dia 2 de Junho – o dia do suicídio – os dois estudantes voltaram para a Rússia. Foi praticamente no mesmo minuto em que entravam no comboio, de regresso a casa, que Júlia C. se lançou do alto de um edifício. Nesse mesmo dia, a polícia agendara uma reconstituição da cena do crime. Talvez fosse isso o que mais perturbasse Júlia C.
Júlia C. dissera à sua amiga que ter de reviver os momentos da violação era, para ela, «o pior de tudo».

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