terça-feira, 25 de abril de 2017

"Gostam muito do novo? Aqui têm o novo"


Pacheco Pereira (excertos)
Macron, que tudo indica vai ser o próximo Presidente da França, é o retrato do medo dos franceses, o candidato que não é carne nem peixe, e por isso mesmo o único obstáculo a Marine Le Pen. Verdade seja que Le Pen deve meter medo, muito medo, mas mesmo perdendo, ganha. O que é preocupante, não é o facto dos candidatos da Frente Nacional, Le Pen, pai e a filha, nunca ganharem na segunda volta das presidenciais, é que reforçam significativamente a sua posição. Hoje a Frente Nacional é o primeiro partido francês, e a sua candidatura presidencial tem um partido por trás, enquanto que a de Macron não tem. Ele fará arranjos a partir da presidência, mas esses arranjos não servem para as legislativas, nem para as eleições locais. Aí Le Pen está a conseguir um poder orgânico e territorial, que este resultado eleitoral vai reforçar.
Olhemos para Le Pen e o seu partido, que não é uma força marginal na França, mas o mais importante partido de extrema-direita da Europa. E eu não uso a expressão extrema-direita sem pensar que se trata mesmo de extrema-direita. Marine Le Pen foi às urnas em França com um apoio que pareceria impossível e bizarro, mas que retrata bem os dias políticos de hoje: Trump e Putin. Putin recebeu-a com honras no Kremlin, e Trump apoia-a nos seus tweets. Os dois têm muita coisa em comum, pensam muita coisa da mesma maneira e, mesmo que não possam materializar essa comunidade de pensamento tanto como queriam, principalmente Trump, não deixam de ser em muitas coisas “irmãos em armas”. E, uma das coisas que os une, é exactamente Marine Le Pen de que ambos são apoiantes sem disfarce.
A novidade da actual situação geoestratégica torna por isso as eleições francesas não só relevantes para a Europa, quer a geográfica, quer a institucional, mas também para o mundo. E a situação é tanto mais nova, quanto uma candidata da extrema-direita como Le Pen, vai ao Kremlin, sem temer pela sua reputação anticomunista que, quer se queira quer não, ainda está associada à Rússia e a Putin. E Trump, um Presidente da democracia americana, não tem pejo de apoiar a mais proeminente representante na política europeia do radicalismo de direita que seria pestífera para qualquer outro Presidente americano.

A direita extrema que Le Pen representa é das mais perigosas da Europa, porque não só é mesmo aquilo que dizemos que ela é, como a verdade, por muito que nos custe, é que Le Pen ganhou já bastante e qualquer ganho para Le Pen é muito preocupante. Nem sequer me refiro à Europa porque esta está na situação de que ganhar é não perder, o que não é brilhante. Vai andar feliz uma semana ou duas e depois tudo começa na mesma. 


Resultados finais: Macron 24%/ Le Pen 21,3%

São conhecidos os resultados definitivos revelados pelo Ministério do Interior:
Macron 24,01%
Le Pen 21,30%
Fillon 20,01%
Mélenchon 19,58%
Hamon 6,36%
Dupont-Aignan 4,70%
Lassale 1,21%
Poutou 1,09%
Asselineau 0,92%
Arthaud 0,64%
Cheminade 0,18%

Os votos em branco representam 1,78% e os nulos 0,77%.

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