segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Metade dos franceses votaram contra o euro e a UE"


Rui Ramos
As eleições presidenciais francesas revelaram outro país dividido pela questão europeia, e em que é improvável que a elite política consiga assegurar um governo efectivo.

Esta primeira volta das eleições presidenciais não trouxe boas notícias para a Europa da integração. Com Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon , mais de 40% dos eleitores franceses manifestaram-se contra o euro e a União Europeia: quase tantos como os que, através de Emmanuel Macron, François Fillon e Benoit Hamon, se manifestaram a favor. A França revelou-se tão dividida acerca da questão europeia como o Reino Unido estava o ano passado, aquando do Brexit. Mas no Reino Unido, os partidos tradicionais mantiveram a iniciativa política (o Brexit é conduzido pelo Partido Conservador, não pelo UKIP), enquanto em França, os grandes partidos do regime, representados por Fillon e Hamon, ficaram pela primeira vez ambos de fora de uma segunda volta das presidenciais.
O problema, porém, não é apenas a marginalização dos gaullistas e dos socialistas. O maior problema é que nem Emmanuel Macron, o europeísta, nem Marine Le Pen, a anti-europeísta, são uma verdadeira alternativa. Macron é apenas o cartaz de ocasião, calculado para agradar ao eleitorado, da elite de diplomados das grandes escolas que domina o regime. Não é de direita nem de esquerda. Acha que tudo tem um lado positivo e negativo: o dirigismo estatal e o mercado livre, o proteccionismo e a globalização… Macron é como se a França tivesse chegado finalmente, com vinte anos de atraso, à década de 1990 de Bill Clinton, Tony Blair e Gerhard Schroeder. A esse respeito, foi interessante constatar que a velha Terceira Via consubstancia, hoje, o europeísmo, como se viu pelo entusiasmo com que o porta-voz de Angela Merkel logo desejou boa sorte a Macron.
Enquanto Macron é o candidato favorito dos quadros superiores, Marine Le Pen é a candidata favorita da classe trabalhadora. Le Pen vai apelar aos “patriotas” contra um “sistema” rendido à “globalização selvagem”. Mélenchon, pela extrema-esquerda, quis explorar a mesma vaga anti-euro e anti-globalização. Mas a direita nacionalista é mais coerente e completa do que a esquerda internacionalista nessa guerra, porque rejeita toda a livre circulação, não só a de bens e de capitais, mas também a de pessoas. Em 2002, a “disciplina republicana” mandou toda a gente votar em Chirac contra o pai Le Pen. A filha Le Pen, com alguma razão, espera que essa disciplina não funcione agora. Como podem os conservadores que apoiaram Fillon (20%) votar num crente do progressismo urbano? Como podem os esquerdistas revolucionários que seguiram Mélenchon (19%) entusiasmar-se com um fanático do euro e da globalização? Na noite eleitoral, Mélenchon recusou-se, aliás, a apelar ao voto em Macron, para gáudio dos comentadores da Frente Nacional.

2 comentários:

Bilder disse...

Check https://www.henrymakow.com/2017/04/french-embrace-rothschild-status-quo.html

A-24 disse...

Obrigado, Bilder!