sexta-feira, 21 de abril de 2017

Revolução francesa

 Andre Abrantes Amaral

A grande maioria dos comentadores está pasmada com o que se passa nas presidenciais francesas.|

Na verdade, entre os quatro candidatos com possibilidades de passarem à segunda volta apenas um, François Fillon, pertence a um dos partidos tradicionais. Dos restantes três, Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen, apesar de estarem na política há muito tempo, pertencem a partidos charneira e propugnam políticas radicais, em grande parte contrárias às seguidas nas últimas décadas. Já quanto a Emmanuel Macron, apesar de estar mais dentro do sistema do que quer fazer crer, Macron tem vários padrinhos políticos fortemente posicionados na estrutura do Estado e no sector empresarial francês, não seguiu os trâmites normais do processo de ascensão política.
Fonte: Telegraph
No entanto, para um espectador atento, nada disto é uma surpresa. Há alguns anos que a França está a passar por um profundo processo de transformação política. Em 2015 tive oportunidade de escrever precisamente sobre isso para o Diário Económico e, entretanto, muita mais água correu de baixo da ponte. Foi o livro de Éric Zemmour, ‘Le suicide français’, publicado em 2014, um sucesso de vendas e no qual o autor culpa o Estado republicano e laico pelo enfraquecimento do poder político, mas também Alain Finkielkraut, cujo livro ‘L’identité malheureuse’ tem dado que falar. Já dei conta de Finkielkraut aqui no Insurgente, aquando do seu episódio com a Nuit Dedout, quando este filósofo francês apelidou de fascista o movimento de extrema-esquerda. Finkielkraut é tão ou mais crítico que Zemmour, embora procure soluções mais razoáveis. ‘L’identité malheureuse’ aborda de um modo politicamente incorrecto a imigração e a ferida que esta provocou na identidade francesa. O capítulo sobre o laicismo é sublime na forma como defende o ensino público e na crítica ao mau uso que a hipocrisia dele fez.
Há muitos mais autores como Pascal Bruckner e a sua defesa da liberdade individual. Outro, é Michel Onfray. A forma como Onfray foi ostracizado pelas correntes políticas de esquerda é muito importante para se perceber o descalabro da esquerda moderada francesa. Há precisamente um ano, desta vez no Jornal ‘i’, referi-me a este homem que, apesar de esquerda, foi por esta banido porque, como Onfray depois explicou, está dominada pelo ódio. Onfray pôs o dedo na ferida e se dermos um pouco de atenção ao que ele escreve, percebemos Benoît Hamon, Jean-Luc Mélenchon, Arnaud Montebourg e, sim é verdade, Marine Le Pen.
Como a esquerda se pôs à margem deste debate político é de realçar que a transformação política ocorrida se fez à direita. Unicamente à direita. Esta revolução de pensamento ocorreu na direita e faz-se agora notar nas eleições presidenciais de 2017. Como? Com o descalabro do PS francês, com o discurso de Fillon, que só não vencerá devido ao caso dos empregos fictícios e com o surpreendente surgimento de Macron. Este, com um discurso relativamente moderado pode, caso vença e imponha o seu partido nas legislativas, ser o novo De Gaulle francês, que ele tanto admira. A esquerda, com o PS de Mitterrand reduzido a pó, Mélenchon com propostas de um mundo antigo e uma Marine Le Pen (sim outra vez, de esquerda, como referiu Zemmour) representa um risco sério à França e à Europa precisamente por não ter evoluído.
Macron e Fillon até podem não passar à segunda volta. Mas se tal suceder, não é porque não tenham ouvido as críticas feitas à orientação política seguida nos últimos anos. Se ficarem de fora no Domingo é porque vieram demasiado tarde. Se Marine Le Pen e Mélenchon passarem à sua segunda volta, com um programa político e económico preconceituoso e a cheirar a mofo será porque a esquerda não quis fazer parte deste debate. Se colocou à margem e, à margem, ficou parada no tempo. Como Portugal, a França está dividida: de um lado, encontram-se muitos dos que estão protegidos por leis que prejudicam os que ficaram ou querem ficar de fora do feudo; de fora do domínio dominado por um conjunto de políticos que vêem neste sistema uma forma simples de garantir votos, vencer eleições e governar com a legitimidade que dizem ser democrática.
A revolução francesa a que assistimos é prova de que um verdadeiro debate político pode mudar o cenário partidário de um país. Se vem a tempo é o que ficaremos a saber já no Domingo.

2 comentários:

Afonso de Portugal disse...

Aquela aparente descolagem do Macron nas últimas semanas é deveras preocupante. Espero estar enganado, mas receio que Le Pen vá ter o mesmo destino que Wilders teve em Março...

A-24 disse...

Sim, caro Afonso, mas tudo o que for acima dos 35% será já uma vitória e se for acima de 40% será mel, pois significa que os franceses estão a abrir os olhos, apesar de toda a abjecta campanha contra Le Pen. E até vejo isto numa perspectiva a 5 anos. Se ela conseguir 40% agora, daqui a 5 anos ganha de certeza!