domingo, 16 de abril de 2017

"Turquia. O que pensam os jovens que temem Erdogan"

A-24: Em dia de referendo na Turquia, um excelente artigo sobre como os jovens vêem este referendo e as transformações na sociedade tuca desde que rdogan chegou ao poder. O regresso ao arabismo pode estar eminente, para azar daquele povo.

Via Observador
"Já não vivo no país onde a minha mãe e o meu pai viveram. Eles contam-me como foi e eu ainda me lembro de uma Turquia sem medo, onde as mulheres andavam de mão dada com os namorados e beijavam-se na rua sem problemas, mas agora tudo mudou. Há uma aura de medo. Pode não te acontecer nada, mas também podes ser preso pelo que escreves no Twitter -- é díficil respirar"
Tunc, fotógrafo

"Todos os partidos representam uma geração que está presa a algum fanatismo religioso, uma geração mais velha, que dá muita importância às divisões étnicas e ainda é um pouco sexista também. Não penso que representem o futuro das gerações mais novas."
Zaferhan, programador cultural
Os métodos de contenção da oposição de Erdogan não são novos na Turquia e não é que os turcos vejam os militares como sinónimo de paz, de democracia, de abertura. Houve inúmeras purgas durante os vários golpes de Estado conduzidos pelo exército. O punho-de-ferro de Erdogan não é o mais forte que os turcos já sentiram, mas não deixa de ser ele o homem que lidera um regime com pouca abertura para acomodar vozes dissidentes. 
“Se o líder quer uma coisa então toda a gente quer a mesma coisa, incluindo a maioria da imprensa. Se ele muda de opinião, por exemplo em relação à Europa, onde sempre quisemos estar, então tudo muda com ele. Não há lógica, não há individualismo, não há escrutínio, não há justiça. Os meus amigos vivem uma espécie de depressão existencialista e muitos procuraram uma vida fora da Turquia“, diz.
"A religião ocupa de novo um papel central na vida das pessoas “e isso afeta tudo”, diz Tunc. “Já não há a religião de cada um, há a religião ‘certa’, e é uma forma de controlar o público. O governo utiliza a religião de forma profissional, não ser crente ou não tão crente é uma espécie de traição à Turquia. Agora somos só mais um país islâmico e capitalista, mas sem petróleo. Eu não chamaria à Turquia um bastião de coisa nenhuma neste momento”, diz.
Tugba é casada com um português, fala português e visita Portugal pelo menos três vezes por ano. Estudou fotografia e produção audiovisual em Lisboa e, depois de um período nos Estados Unidos, decidiu vir viver para Portugal com o seu marido, André. Mas a crise estava no auge, em 2012, e era difícil ser um casal de artistas. Em 2013 mudaram-se para Istambul, que é a cidade de Tugba, mas o país do qual ela passava a vida a falar, o país das minorias que não eram tratadas como tal, o país cheio de parques onde famílias de qualquer classe ou religião se juntavam para passar o domingo, o país onde os primeiros ministros eram poetas, cheios de mundo, e traduziam T.S. Eliot para turco, já não estava lá.
"Espero mesmo que as pessoas não aprovem estas mudanças. A Turquia está a ser oprimida, parece que não há esperança, o governo no AKP está a trazer de volta uma cultura árabe que eu respeito, como respeito todas as outras, mas que não é parte da nossa identidade, é uma fabricação."
Busra, jornalista

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