quinta-feira, 18 de maio de 2017

Comfort food

Nuno G. Poças 
Os livros de auto-ajuda não se tornam um sucesso porque são objectivamente úteis. A livralhada romântica de cordel - dos Biancas e dos Sabrinas aos Chagas Freitas - não vendem porque são genialidades literárias. O trendy, o gourmet, o lifestyle não são o norte da bússola porque as pessoas estão mais delicadas ou sofisticadas. Estes fenómenos servem para nos satisfazermos social e psicologicamente. São a masturbação cool em formato de hambúrguer com rúcula que usámos para esquecer a crise. Mais do que os dados e os indicadores económicos, mais do que a realidade, o lado psicológico da crise foi, talvez, o que mais nos levou ao tapete.
Não resultarão, ao que parece, como não resultam as fórmulas "ama-te", "acredita", "vence" ou "limpa o teu corpo". Não será por acaso que, ao mesmo tempo que começámos a beber gin copos com jardins botânicos lá dentro, aumentámos o consumo de anti-depressivos. Faltava-nos qualquer coisa. Primeiro, que se afastasse a nuvem negra dos "tempos difíceis". E isso fez-se com o optimismo pateta de Marcelo Rebelo de Sousa e com a falta de vergonha (nos jornais costuma ler-se "habilidade") de António Costa. Depois os números, mais ou menos sustentáveis, vieram. O défice baixava, o crescimento aguentava-se, as exportações subiam. E os sindicatos não faziam greve. O País estava em "paz social". Este fim-de-semana alguém partilhava uma imagem de Cavaco Silva e Passos Coelho que dizia "já repararam como tudo isto só aconteceu depois de eles terem ido embora?". Isto é absurdo, sim, mas explica tudo o resto. É "comfort food", como agora se diz. Depois da vitória no Europeu de futebol, continuámos sedentos de mais coisas que nos mobilizassem enquanto comunidade, enquanto tribo, enquanto povo; de coisas que nos fizessem disparar a adrenalina e a capacidade de nos comovermos. E o Papa veio a Portugal. Canonizou mais dois portugueses. O Benfica ganhou pela primeira vez quatro campeonatos seguidos. E Portugal ganhou pela primeira vez a Eurovisão. Falou-se em regresso ao Salazarismo e aos três F, como se os três F não fossem muito maiores que o Salazarismo. Como se não tivessem sobrevivido nas pessoas. Importa, na verdade, muito pouco que a dívida continue a crescer, que as contas públicas não sejam sustentáveis, que o Governo esteja a satisfazer todos os lóbis. Todos nós fazemos parte de um lóbi. Estamos todos satisfeitos. Vai correr mal, mas que se lixe. Agora estamos a mostrar que somos capazes de fazer coisas, como na bola. A vingar décadas de noites miseráveis de derrotas, como na Eurovisão. A ver num artigo qualquer num jornal estrangeiro o reconhecimento da nossa grandeza porque nos gabaram os pastéis e as esplanadas. Isto tudo pode ser um circo, se quiserem. Mas parece que o pão é razoável, chega perfeitamente. Podem vir os economistas explicar o contrário. Quem é que, nestes meses, nestes anos, parece querer ouvir falar em números, naquela linguagem que, na realidade, poucos percebem? Portugal está de férias há meses e foi sair à noite este fim-de-semana. Quem é que, no seu perfeito juízo, quer deixar de estar de férias? Como é que se cria uma alternativa às férias? Como é que se explica a alguém que tinha fome e está a comer que é bem capaz de vomitar daqui a pouco? Não se explica. Perceber este fim-de-semana é perceber que a oposição, em Portugal, também está a precisar de ganhar um torneio qualquer, sob pena de ser expulsa do campeonato.

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