segunda-feira, 8 de maio de 2017

"Uma tragédia chamada Brasil"

Rui A. 

(Excertos)
Acabado de chegar de São Paulo, ponderei a possibilidade de nada escrever sobre o que lá encontrei nas últimas semanas.|

As revistas que colecionara para fundamentar um possível texto, deixei-as todas, à última da hora, no hotel. O que por lá fui vendo, ouvindo e lendo foi mais do que suficiente para provocar uma overdose de política brasileira, capaz de me enjoar por muitos anos.

O Brasil é, por estes tempos, uma tragédia sem fim à vista. No próximo ano, quando se disputarem as eleições presidenciais, quem estará em condições de ser candidato, sabendo-se do rigor da lei eleitoral sobre os chamados políticos «ficha-suja»? E quem terá as condições pessoais para moralizar o país depois desta onda de denúncias, que certamente conduzirá a muitas condenações e prisões, e para fazer as reformas difíceis, mas imprescindíveis para que o Brasil volte a crescer? 
De Lula e do PT já não restavam dúvidas. Da maioria dos poderes federais, estaduais e municipais não se ignorava que estavam tomados de personagens ávidas de dinheiro fácil, capazes de tudo para o conseguirem. Dos partidos políticos, do PMDB ao PSDB e ao PT, passando por todos os outros mais pequenos, bem se sabia que eram – são – basicamente máquinas para a conquista e manutenção do poder e de todos os benefícios materiais que ele permite, permanecendo completamente trepanados de qualquer romantismo ideológico. Mas havia ainda a ilusão de que algumas destaspersonas aliavam a competência técnica a uma certa honorabilidade pessoal, distanciando-se das práticas comuns da ladroagem instalada. Henrique Cardoso, Alckmin, Serra, Aloísio Nunes, entre outros, pareciam pessoas de bem, verdadeiros oásis de honorabilidade num deserto político de corrupção. Na semana passada, a lista do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin pôs um ponto final nessas ilusões.

A segunda questão pode pôr-se em termos seguintes: por que é que dois países de um mesmo continente – o Brasil e os EUA, por exemplo -, igualmente grandes e ricos, tornados independentes em alturas muito próximas – 1776, o primeiro, e 1822, o segundo -, são tão diferentes na capacidade respectiva de produzir riqueza, bem-estar para os seus, justiça social e honorabilidade política e institucional? Essencialmente, porque os EUA são um verdadeiro estado de direito democrático desde a sua fundação e o Brasil ainda não o é, volvidos quase duzentos anos desde que se tornou independente de Portugal. Nos EUA os fundadores tiveram o maior cuidado em dotar o país de um sistema político assente numa Constituição liberal, com poder limitado e controlado e fiscalização séria de quem o exerce. Foi isto que prioritariamente os preocupou em Filadélfia. Isso, verdadeiramente, nunca aconteceu no Brasil. O que significa que o estado de direito democrático é o grande valor político pelo qual vale a pena lutar.

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