terça-feira, 20 de junho de 2017

Sobre a tragédia do fogo de Pedrogão Grande

Maria João Marques no Insurgente 


Uns apontamentos iniciais. Porque se é certo que temos clima propenso a fogos florestais, e que as condições climatéricas ‘atípicas’ que não raro resultam em incêndios, de altas temperaturas e baixa humidade, são muito típicas por cá, nada nesta propensão para e regularidade de condições ‘atípicas’ nos deve levar a pensar que nada há a fazer e que o melhor é sofrermos os fogos estoicamente, que fazem parte da sorte que nos calhou. 
1. Muitas pessoas morreram encurraladas pelas chamas em estradas. O incêndio foi muito rápido, sim, senhores. Mas este é o momento para nos congratularmos por termos governantes que gastaram tanto dinheiro na caça às multas, com radares por todo o lado, não vão os meliantes que guiam a 60km/hora escapar, quando somos um país com propensão para fogos, com estradas e até autoestradas no meio de arvoredos suscetíveis de arderem no verão. Ainda bem que nunca se desviou dinheiro da caça às multas para coisas úteis como painéis eletrónicos nas estradas das zonas com floresta, de forma que, havendo sinalização de um fogo, imediatamente quem passa nas estradas num raio de uns bons quilómetros fique avisado do que se passa e possa inverter marcha ou alterar o caminho. Ainda bem que o dinheiro é usado onde serve melhor as populações. 
2. A criatura de Belém. Não sei bem como pensa Marcelo Rebelo de Sousa, que apareceu a correr, que os seus bonitos olhos ajudam os bombeiros nos momentos em que está tudo em alvoroço – parece-me que só cria distrações ao trabalho que já precisa de concentração e decisões rápidas, e complicações de segurança – mas pior que isso é a declaração de MRS, em cima do acontecimento, de que tudo o que podia ser feito foi feito. Tal falta de respeito e de responsabilidade nunca se viu. Provavelmente este fogo seria sempre calamitoso, mas como pode a criatura de Belém garantir que não se poderia ter dado melhor resposta? Que as estradas não pudessem ter sido cortadas de imediato? Não sabiam que a temperatura iria estar em níveis estratosféricos e por isso com tendência para incêndios bravos? Não dá para ter a proteção civil preparada nestas típicas condições atmosféricas ‘atípicas’? Tanto mais que a austeridade já terminou, e agora há dinheiro para tudo, e estamos todos pacificados e amiguinhos, como assegura Marcelo. 
Um presidente da república (nem merece maiúsculas) a branquear antecipadamente o necessário apuramento de responsabilidades numa tragédia com mais de 60 mortos é de fazer de corar de vergonha defuntos enterrados há dez anos. Tanto mais que há indíciosque, se não há reparos (pelo contrário) aos bombeiros que estão no terreno, já a proteção civil e toda a organização que envia os bombeiros aparenta ter respondido tarde – mesmo tendo em conta que seria sempre impossível conter este fogo sem danos de maior.

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